domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crônica: O perturbado que estuda!



Há semanas estou angustiado, não consigo desatar as amarras de minha mente. As ideias não estão acompanhando minha vontade. Talvez estejam brigadas. Talvez elas queiram o desquite do meu corpo. É nessa confusão de pensamentos que recordo de um momento curioso.

Recentemente, fui ao centro da cidade em direção à Biblioteca Pública para participar de um curso sobre as crônicas da Raquel de Queiroz. Ao andar pela rua movimentada, eu apressava o passo para fugir do barulho, do sol impiedoso e do medo constante de alguma fagulha de violência. Estava atordoado, não queria chegar atrasado, gosto de cumprir meus horários. É claro, entretanto, que minha história com o tempo se repetiu, cheguei cedo demais! O segurança acabara de abrir a biblioteca.

Para minha surpresa, o local não correspondia com o que eu imaginava. O prédio estava poído, as cores envelhecidas e uma completa sensação de desolação pairava pelo ambiente. É como se dentre todos os logradouros daquela região, este estaria órfão de leitores e usuários; um solilóquio que me consternou.

Aguardei o início da palestra. Foi quando na iminência de começar, chega uma figura, ao meu juízo, um pouco deselegante para o momento. Fitei-o estranhamente. Era um senhor barbado, cabelos longos, carregando uma mochila cheia de cacarecos, estava com mau cheiro, decerto, era um morador de rua. A confusão logo se deu com a chegada do segurança, que de algum modo, tentava impedir a presença do estranho.

Não sei como se chama, mas por que não Vincent Gauguin Byron Tchaikóvsky?

O segurança tenta interrompê-lo e pergunta: “Você se inscreveu no curso?”

Com espírito de revolta, bradou Vincent com altivez: “Chame a polícia, isto aqui é um local público, eu não preciso me inscrever, ora mais”.

Foi nessa troca de farpas que olhei rapidamente para minha estimada colega, que também correspondeu com um olhar de: “Nossa!”.

A palestra começou com sua presença, e o que mais me deixava interessado, além da história de Raquel de Queiroz, era a inteligência daquele homem. De um minuto para outro Gauguin interagia com a aula, falava de Dostoiévski, citava o movimento tropicália, lembrava da Ditadura Militar, entendia a expresão Traduttore, Traditore, dentre outras preciosidades. Contudo, como isso é possível? Qual a história daquele homem? Onde viveu? De onde vinha tanto saber? Seria apenas loucura de um desequilibrado?

Passei a fazer o que chamo de uma verdadeira exegese do saber humano nas suas mais diversas personificações. Era fascinante como a condição social em que ele vive, aparentemente, não foi crucial para torná-lo um ignorante, embora os traços animalescos de um vivente de rua ainda estivessem presentes.


Apesar disso, muitos loucos na história foram brilhantes com o conhecimento que tinham! Seria ele um desses? Não posso afirmar. Entretanto, como Rubem Alves me ensinou “Na feira das utilidades não há lugar para as coisas inúteis. Tudo nela se justifica pela utilidade. Sem ser capaz de realizar a obra para qual foi criado, o objeto não mais se justifica”.

 

A mente brilhante do desabrigado, sem dúvidas, merecia mais utilidade, merecia receber apoio para ampliar aquele saber. Quando algo torna-se inútil, descartamos no lixo. Este homem foi descartado, sua identidade foi perdida nas noites frias da escuridão das ruas.

 

E minhas ideias desobedientes? Bem, elas aprenderam que são úteis e que não querem seguir o mesmo destino daquele. Elas querem ilumina-lo e resgatá-lo de seu recôndito abismo mental. 


Sua divulgação só é permitida com a justa referência ao autor, Israel Viana, e ao seu local de origem atualidadesdemundo.blogspot.com.br

Um comentário:

  1. Lindo texto! Realmente me fez refletir sobre o que venho passando diante de tantas frustrações por objetivos não alcançados. A cada dia passo a entender a importância da persistência e esse trecho "Na feira das utilidades não há lugar para as coisas inúteis. Tudo nela se justifica pela utilidade. Sem ser capaz de realizar a obra para qual foi criado, o objeto não mais se justifica” deu aquele estalo do futuro.

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